O que são zoonoses? Quais os impactos de uma pandemia? O que podemos fazer pelo fim das pandemias?

Neste artigo falaremos sobre como a existência das zoonoses tem uma ligação direta com a relação que nós seres humanos temos com a natureza, com a maneira que interferimos no meio ambiente, desde a nossa alimentação até a exploração de animais silvestres.

Compartilharemos algumas práticas que podemos adotar durante nossas viagens e no nosso dia-a-dia para evitar que novas doenças surjam, e apresentaremos uma campanha global que visa o fim das pandemias.

A origem do COVID-19

Hoje vivemos em isolamento social porque o SARS-CoV-2 conhecido como “novo coronavírus” que causa a doença chamada COVID-19 se espalhou pelo mundo, e por isso foi declarada uma pandemia.

Há 2 meses muitos brasileiros estão dentro de casa, viagens foram canceladas e assim como animais em cativeiro, sentimos saudade de poder se socializar com amigos, fazer uma refeição junto aos nossos familiares, e do tempo em que nos sentíamos livres.

Estudos apontam que o COVID-19 tem origem dos morcegos.

Há dúvidas se a doença chegou até os seres humanos através de um animal intermediário (pangolin) do mercado de animais selvagens em Wuhan na China, ou a partir de um vazamento ou infecção acidental dentro de um laboratório na mesma cidade.

O fato é que mais uma vez, uma zoonose, afeta negativamente pessoas de todos os continentes.

Antes de continuar esse papo, vamos falar um pouco mais sobre zoonoses, porque só entendendo o que é, sua origem e como é transmitida conseguiremos ter clareza sobre nosso papel para contribuir com o fim das pandemias.

O que você precisa saber sobre zoonoses

O que é zoonose?

Zoonoses são doenças que podem ser transmitidas entre animais e seres humanos. Ou seja, tanto de animais para seres humanos, quanto de seres humanos para animais.

Sabe o que é mais impressionante? Parece que zoonose é algo novo em nossas vidas, mas não é não.

Quais os tipos de zoonoses mais populares?

Além do COVID-19, entre as zoonoses mais conhecidas antes dessa epidemia estão: a AIDS que segundo estudos foi transmitida por um primata, Ebola por morcegos, Influenza (conhecida como gripe aviária) por aves, H1N1 (gripe suína) por porcos, SARS através de uma civeta, e MERS de um camelo.

Para conhecer outras zoonoses e suas origens, vale a leitura desse artigo da MD.Saúde.

Como uma zoonose é transmitida de um animal para um ser humano?

Uma zoonose pode ser transmitida de diversas formas como através de:

  • contato com animais doentes ou não (mesmo animais que não estão doentes podem naturalmente carregar organismos que causam doenças em nós)
  • arranhões
  • picadas
  • mordidas
  • contato com saliva, fezes ou urina
  • contato com objetos e ambientes contaminados
  • ingestão de alimentos contaminados como carne mal passada, água contaminada, leite não pasteurizado
  • entre outras…

A transmissão geralmente ocorre através de animais que foram retirados de seu habitat natural para comércio, ou que tenham sido “forçados” a se aproximarem dos humanos a medida que nós invadimos seu habitat.

Muitas zoonoses ainda podem surgir se não mudarmos a maneira em que nos relacionamos com a natureza.

Para quem se interessa por esse tema, recomendo um episódio do podcast Vozes do Planeta sobre Zoonoses e a relação com o Coronavírus.

Os impactos de uma pandemia para a sociedade

fim das pandemias

Sem discriminar ninguém, o COVID-19 vem prejudicando desde as classes menos favoráveis até as mais altas. Desde o bolso e educação, até a saúde e a vida.

No momento em que escrevo esse artigo, são mais de 278 mil mortes no mundo, e só no Brasil constam mais de 145 mil casos confirmados e 10.000 mortes.

Avaliando os impactos financeiros, sem demanda para exportação e até mesmo de consumo interno, empresas de todos os portes são prejudicadas. Alguns setores como o de turismo por exemplo, são severamente prejudicados.

É previsto que o impacto financeiro mundial chegue a 2,6 trilhões de dólares em 2020 devido a pandemia.

Com toda a instabilidade do mercado, surgem desempregos.

Estados Unidos, que por muito tempo manteve uma taxa de desemprego de em média 3,5%, no mês de abril/2020 passou para 14,7%.

Mais de 20,5 milhões de pessoas perderam seus postos de trabalho em um único mês.

Com o dólar saltando para R$5 poucos dias após a declaração da pandemia, em Maio/2020 já chegamos a um pico de R$5,83.

O governo, que deixou de investir em saúde por diversas vezes, hoje tem que construir hospitais de campanha.

O ensino agora é online, claro, para aqueles que tem o privilégio de ter eletricidade e uma conexão à Internet em casa.

Em um país onde quando se declara uma pandemia, seu presidente subestima os impactos da doença, e que quando o ministério da saúde pede isolamento social, e a primeira coisa que parte de sua população faz é ir pra praia, infelizmente fica mais difícil de controlar uma doença altamente transmissível.

Não temos, aliás nenhum país pode dizer que tem, estrutura para lidar com esse tipo de situação.

O que podemos fazer para previnir pandemias futuras?

Todos queremos viver livres de zoonoses e parar de utilizar máscaras, mas para que isso aconteça precisaremos nos mover.

Precisamos pressionar mais os governos para que sejam mais rigorosos na fiscalização e punição de criminosos que exploram animais silvestres e que desmatam as florestas.

O mesmo teremos que fazer com empresas agrícolas, para que adotem práticas cada vez mais sustentáveis. Essa coisa deixar um animal em cima de outro, e de desmatar florestas para agricultura e pastagens não dá mais.

E claro, mudanças requerem esforços nossos, precisamos rever nossa alimentação e nossos hábitos para chegarmos ao fim das pandemias.

Turismo sustentável e sua relação com a prevenção de doenças

Muitas vezes nem imaginamos o quanto um viajante responsável, que se preocupa em não deixar pegadas por onde passa, colabora na prevenção de doenças que afetam pessoas, animais e até mesmo plantas.

Alguns exemplos de boas práticas:

  • Deixar o que é da natureza, na natureza.
  • Praticar turismo de observação ao invés de interagir com animais silvestres.
  • Entender a procedência daquilo que se consome.

Falaremos mais sobre isso abaixo:

Por que não devemos retirar conchas, pedrinhas entre outros itens da natureza?

Pelo fim das pandemias

Você já reparou que quando viajamos para um outro país precisamos preencher um formulário declarando o que temos na bagagem?

E que eles sempre perguntam se estamos levando plantas e animais de uma país para o outro?

A alfândega precisa fiscalizar se os animais ou plantas oferecem risco para essa nova região que estão chegando, muitos podem trazer vírus, fungos ou bactérias para um ambiente que não está preparado para recebê-lo, e com isso causar doenças e pragas.

Em 2019, enquanto estive na Isla Contoy no México, o guia (que deu praticamente uma aula sobre turismo responsável – assista nos destaques do Instagram) comentou que o ecossistema dessa ilha sofreu sérios problemas com bactérias que chegaram através de palmeiras trazidas da Indonésia.

Isso também pode acontecer quando um turista quer levar conchas, estrela do mar, pedrinhas, areia, e etc como um suvenir de um lugar para o outro. Por isso, devemos deixar tudo em seu lugar.

Por que não devemos tocar animais silvestres?

Selfie com preguiças na Amazônia
Turista tirando selfie com preguiças na Amazônia
Fonte: worldanimalprotection.org.br

Quando a orientação para um turismo responsável com animais é de que não devemos interagir com animais silvestres, além ser por conta de uma preocupação com a nossa segurança e o bem-estar do animal, trata-se também de uma preocupação com a saúde de ambos.

Durante o contato com um animal silvestre, estamos sujeitos a sermos contaminados por alguma doença desse animal, e de estarmos passando pra ele alguma bactéria que lhe cause alguma doença.

Além disso, vale lembrar que esses animais na maioria das vezes são explorados de forma ilegal, capturados das mães quando filhotes ou mesmo mantidos sob algum tipo de sedativo para ficarem amansados.

Com isso, a taxa de mortalidade deles é alta, fazendo com que novas capturas sejam feitas.

Sem contar que esse turismo muitas vezes explora crianças também =(

Por que devo me preocupar com o que como durante as viagens?

A gente pode até achar que comer animais exóticos é “coisa de asiático”, mas essa prática também é feita no Brasil, entre nossos pratos exóticos existem tatus, jacarés, entre outros.

Você sabia que estudos mostram que mais de 60% dos tatus da Amazônia tem bactéria da lepra?

Na hora de provar uma prato típico que seja de origem animal, vale pesquisar sua procedência e se seu consumo é legalizado.

Animais exóticos (que na linguagem de biologia, refere-se a espécies não nativas ou sem ocorrência em determinada área) muitas vezes são comprados por restaurantes em mercados de animais que possuem uma péssima condição para eles, mas uma ótima condição para originar uma zoonose.

No caso do mercado de Wuhan por exemplo, vários animais de diversas espécies eram mantidos em pequenas jaulas, estressados, em cuidados básicos de higiene, tendo acesso a secreções e fezes uns dos outros.

Isso também acontece no Brasil, como no Mercado Municipal de Belo Horizonte e no Ver-o-peso em Belém.

Além disso, muitos pratos exóticos são originários de animais que correm o risco de extinção, ou que fazem parte de um sistema de caça ou pesca predatória que afeta todo o meio ambiente.

Um caso comum é o da famosa sopa de barbatanas de tubarão na China.

Muitos viajantes podem ficar curiosos para experimentá-la, mas ao fazerem, colaboram com o tráfico de tubarões, extinção de espécies, impactos em ecossistemas e mais.

Me dói escrever isso, mas os pescadores cortam as barbatanas do tubarão vivo, e os devolvem ao mar onde morrem por afogamento, hemorragia ou por serem devorados por predadores.

Confira mais formações sobre isso nesse artigo da National Geographic.

Essas barbatanas chegam ao continente asiático de diversos cantos do mundo, recentemente foram apreendidas em Hong Kong 26 toneladas de barbatanas de origem da América do Sul.

Ah, muitos brasileiros não sabem, mas cação é tubarão viu?!

No caso da SARS, esta zoonose foi transmitida para um ser humano através de uma civeta que estava em um cardápio.

Fim das Pandemias

Desde que me dei conta de como a pandemia que enfrentamos certamente tem uma relação com o tráfico de animais silvestres, fiquei pensando:

“Se sabemos que o tráfico de animais ainda existe por ser um negócio lucrativo para alguns, fica claro que esse é o momento ideal para se criar alguma campanha que pressione os governos a serem mais rígidos em relação a isso e pegarem firme nas fiscalizações. Afinal, o mundo todo foi afetado severamente, inclusive financeiramente.”

Foi aí que através do fotógrafo e conservacionista Shawn Heinrichs, descobri que havia uma campanha global com este objetivo.

Pelo Fim Das Pandemias

Vídeo da campanha #PeloFimDasPandamias

A campanha #PeloFimDasPandemias (#EndPandemics em inglês), visa focar em sua causa principal, que é o comércio de animais silvestres e a destruição de habitats naturais.

Confira quais são os 3 pilares dessa campanha:

  1. Redução da demanda por fauna silvestre
  2. Proteção da vida silvestre em seu habitat natural
  3. Combate ao tráfico de vida silvestre

A #EndPandemics possui representantes no Brasil e América do Sul: Freeland-Brasil, Entropika, Rede Latino-Americana de Ministério Público Ambiental.

“Nós precisamos não somente nos preparar para uma próxima pandemia, mas minimizar os riscos de ocorrência de uma nova pandemia. E isso significa mudar radicalmente a forma como exploramos animais silvestres e os recursos naturais, mudar hábitos e abandonar negócios que antes pareciam rentáveis”.

Juliana Machado Ferreira, diretora executiva da Freeland-Brasil

Já faz um tempo que venho reavaliando meus hábitos e buscando cada vez mais mudanças para contribuir com a preservação do meio ambiente e agora com o fim das pandemias.

Venho diminuindo cada vez mais meu consumo de carne, evitando o consumo de produtos que sejam testados em animais, compartilhando o máximo de conhecimento para que mais pessoas tenham clareza sobre os impactos de algumas de nossas atitudes.

Tenho ciência de que tenho um caminho longo a percorrer, mas sinto que a cada passo, tudo fica mais fácil, e que me conecto com mais pessoas que possuem os mesmos objetivos.

Topa embarcar nessa jornada por um futuro?

Como diz Gandhi, precisamos ser a mudança que queremos ver no mundo.


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